Conferência de Abertura do IV EBRUC: Pe. Danilo Pinto

Saudações aos representantes da mesa. Saúdo os representantes da comunidade universitária do Brasil, nos seus universitários, professores e colaboradores, que atuam nas frentes de ensino, pesquisa e extensão do Ensino Superior. Saudações aos representantes de dez regionais da CNBB e das diversas forças da ação evangelizadora presentes no ambiente universitário. Sejam todos bem vindos ao IV Encontro Brasileiro de Universitários Cristãos (EBRUC).

O EBRUC é uma iniciativa bienal do Setor Universidades da CNBB. A atividade consiste na reunião de representantes da comunidade universitária de todo o Brasil, a fim de refletir, partilhar e articular a ação evangelizadora no ambiente de Ensino Superior. O encontro acontece na Igreja no Brasil, desde o ano 2010. O primeiro aconteceu em Betim (MG), com o tema: “Presença e registro dos universitários: linguagem e caminhos”; o segundo aconteceu em 2012, na cidade de Curitiba (PR), com o tema: “Educação e Cultura: areópagos da missão”; e o terceiro em 2015, na cidade de Colatina (ES), com o tema: “Universidade, Igreja e Sociedade”.

Estamos reunidos na cidade de Manaus (AM), na Faculdade La Salle, para a realização do IV EBRUC. O evento tem por tema: “Presença Cristã na Universidade: identidade, pluralidade e diálogo”. Quis Deus, em sua Providência que, o começo deste evento coincidisse com data pátria tão importante, a comemoração da Proclamação da Independência do Brasil.
Na abertura deste EBRUC, quero convidá-los a contemplar um pássaro típico das matas brasileiras, chamado Matita Pêre. Matita Pêre é um pássaro de crista vermelha, cujo canto possui apenas duas notas. O pássaro é símbolo do chamado e do destino do homem, bem como, dos mistérios das matas e do sertão. Queira este pássaro ser um retrato do nosso EBRUC que deseja encontrar, em terras amazônidas, a melodia apropriada para duas notas: fé cristã e universidade.

Convido-os a fazer do IV EBRUC um canto de duas notas. Este evento será uma oportunidade de escutar o chamado à ser o rosto de Cristo no ambiente universitário. Nos esforcemos para discernir os apelos do Espírito Santo, escondidos detrás das necessidades do tempo presente. Estes apelos, no tempo oportuno, serão discutidos em nossa conferência principal, mesa redonda e grupos de discussão simultâneos, no campo da educação, da política, da cultura e da ecologia.

Mas, continuemos seguindo o nosso pássaro. Ele ainda tem a nos dizer. Em nosso Brasil plural, este pássaro assume outra feição e nome. No estado do Amazonas e no Norte, como um todo, ele aparece transformado em uma idosa, chamada Matinta Pereira. Tenhamos em conta que, as tradições e lendas em torno deste pássaro não restringem-se ao Norte do Brasil. Mudadas por gerações e lugares do nosso país, a crista vermelha Matita Perê e o seu descanso sobre uma perna o transformaram no conhecido Matimpererê ou Saci Pererê, como bem nos foi apresentado por Monteiro Lobato. Este outro que agora contemplamos, parece-nos um bom retrato do homem contemporâneo e deste tempo, marcados pela exarcebação da subjetividade, ambiguidade das relações, pela crise cultural dos valores, individualismo e relativismo. É esta a fisionomia de muitos homens e mulheres de nosso tempo.

O que ouvimos até agora, ainda, não é tudo acerca do nosso Matita Pêre. O canto de duas notas deste pássaro, idosa e personagem serviram de caldeirão cultural para o compositor brasileiro, Tom Jobim. O maestro carioca estabelecerá, musicalmente, um diálogo entre a identidade de cada matriz étnica brasileira e a diversidade social do nosso país ao lançar o álbum, chamado Matita Pêre. Em música homônima oferecerá um retrato do homem impreciso de nosso tempo no acerto / desacerto da vida.

O álbum Matita Pêre marcará uma mudança de fase na carreira musical de Tom Jobim. Neste momento, o compositor, sem deixar a bossa nova que o consagrou, acrescenta um outro “tom” á sua vida musical, abrindo-se ao Brasil norte/sertanista. É deste álbum, intitulado Matita Pêre, a famosa música “Águas de Março”. “É peroba do campo, é o nó da madeira. Caingá candeia, é o Matita-Pereira. É madeira de vento, tombo da ribanceira. É o mistério profundo, é o queira ou não queira. (…) São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”. Matita Pêre marca o início da temática ecológica e da inserção de outros elementos da cultura brasileira na carioca bossa nova.

A obra Matita Pêre de Tom Jobim é um convite ao retorno das nossas fontes étnico-Culturais para escutar novamente o chamado / destino escondido num canto de duas notas. É preciso recordar ao homem plural deste tempo, perdido na noite da sua história, da identidade e do mistério de ser homem/mulher: aberto ao transcendente, possuidor de liberdade e de unidade do seu ser (DSI). É preciso recordar ao homem/mulher contemporâneos o seu chamado / destino de ser filho e filha de Deus.

A obra inicialmente inspirada no Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, nas poesias de Drummond e de Mário Palmério recebeu influência dos quatros cantos do nosso país. O pássaro de canto misterioso mudou-se em idosa, personagem folclórico e música. Mudou para continuar servindo às, diferentes culturas, tempos e lugares. O Matita Perê na história do povo brasileiro é uma inspiração para todos aqueles que reconhecem a necessidade de mudança para continuar comunicando sentido à vida das pessoas. Que o Matita Pêre de Tom Jobim, obra conjunta que reúne a identidade e pluralidade brasileira, nos sirva de inspiração para a construção de um projeto de ação evangelizadora no ambiente universitário adaptado aos homens e mulheres concretos de nosso Brasil, neste tempo.

O IV EBRUC, também, acontece no contexto comemorativo dos 10 anos do Setor Unversidades. Que este evento nos dê um novo “tom” e inaugure uma nova fase de duas notas: sinodalidade e missionariedade; traduzidas no Setor Universidades, no lema: “comunhão e missão”. Duas notas que, a partir deste tempo, oferecerão melodia aos nossos chamado, caminhada e missão. Que sejamos melhores, sem deixar o que somos e vivemos, até então.

Os dez anos do Setor Universidades tem sido marcados pelo paradigma da “Igreja em Saída”, apresentado pelo Papa Francisco: na articulação dos nossos regionais, na distribuição equânime dos nossos encontros pela geografia do nosso país, na interface com das nossas atividades com o Ensino, a Pesquisa e a Extensão do Ensino Superior, no acompanhamento das minorias presentes no Ensino Superior, no aprofundamento dos eixos de espiritualidade, reflexão e missão, na caminhada conjunta das diversas forças eclesiais presentes no ambiente universitário.

Não foi sem um propósito de Deus que fomos trazidos à Igreja na Amazônia. Que a vinda ao pulmão do mundo possa arejar a nossa vida e nos permitir respirar novos ares. Que a Amazônia não seja para nós, nestes dias, apenas um lugar, mas um “modo de ser” atento ao nosso chamado/destino de ser discípulos missionários no ambiente universitário. À todos, um ótimo encontro.

Pe. Danilo Pinto

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